segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Uma história para ser e amar

Era tarde, passagem comprada e olhos no painel. Coração que pulava ao peito pensando no momento do encontro. Na viagem, sentia um calor ao seu redor, como se fosse o abraço caloroso do próprio amor.

Aeroporto lotado, pessoas e mais pessoas que passavam de um lado para o outro. Como seriam suas histórias? O que lhes motivava a sair da cama todas as manhãs? Será que tinham vivido um grande amor? Como passavam seu tempo? Que livros marcaram sua existência? Mesmo entre estranhos pareciam todos tão familiares... Sempre curiosa das histórias por detrás dos seres. Foi a curiosidade que a levou a descobri-lo entre os demais. Mais uma? Ela apenas queira conhecer o universo interior daquele que muito tinha a dizer, e o dizia tão bem!

Foi então que perdida entre seus pensamentos, casaco e bagagem levantou os olhos e o viu. Era mesmo verdade? O corpo estremeceu. As mãos ficaram dormentes. O sorriso desabrochou num sol iluminando aquelas paredes frias de chegadas e partidas. "Oi você." Disse ela, meio sem jeito, louca para fazer uma piada para se defender da avalanche de sentimentos que lhe percorria. "Oi você." Ele disse, enquanto olhava a moça mais distante e mais próxima que jamais ousou pensar que um dia iria encontrar. Os olhares pousaram um no outro demoradamente. Naquela eternidade de segundos eles mergulharam profundamente no instante. Efêmero instante. Com toda a beleza de um encontrar-se naquela multidão que lhes envolvia.

Uma mão. Outra mão. Seguiam conectados pelo olhar. Chegaram perto, bem perto, mais perto. Sentiam a respiração um do outro. Narizes que se beijavam enquanto as bocas flertavam num sonho vívido de anseios que demoraram a serem verdades pois os corações estavam tão receosos de se entregarem... esses medos. Essas cicatrizes. Barreiras. Defesas. Tiveram de ser docemente conduzidos pelo universo até enfim darem-se a permissão de viver aquele amor incompreensível aos seus lógicos raciocinares. Tão românticos os dois. Queriam muito mais do que momentos, queriam uma vida inteira. Daquele mútuo olhar, beijar de narizes e flertar de bocas. As mesmas duas bocas se namorando durante uma existência em flor. Era esse o desejo daqueles dois. E o beijo foi se desenhando enquanto mais e mais se sentiam, entre corações que se achegavam mesmo à distãncia e agora tão próximos...

"Eu estou aqui?" Ela perguntou, depois do beijo, sem fôlego e com a alma em festa. "Estamos." Ele respondeu, com todas as defesas ao chão. Deram-se um abraço tão apertado que dava para lhes supor um só. Entre os cheiros de um e de outro, feromônios à vista, corpos arrepiados ela sussura "Que bom." e andam de mãos dadas até o táxi como se aquelas mãos nunca estivessem estado separadas.

Fizeram valer seu encontro, dia após dia. Entre recados apaixonados e telefonemas viviam um vida plena. Dois que estavam juntos sendo ainda assim, dois. Na plenitude do amor sabiam continuar a ser, e se apoiar, e vibrar pelas conquistas pessoais de cada um - sabiam que dois inteiros é que fazem uma relação harmoniosamente bela. Sabiam respeitar os limites de cada um, nas discordâncias achavam um ponto comum para amar sem ter de ser igual ao outro. Eram diferentes sim. Pensavam diferente em muitos aspectos e era isso que tornava a relação ainda mais bela. O que aprendemos com os exatamente iguais? Tinham um ao outro e sabiam disso. Na confiança de se relacionarem algum tempo distantes fisicamente, mas conectados por aquele laço de amor que se expressava de variadas formas. Se sentiam próximos. Ela o via pelos cantos de seu lar e ele também. De modo que durante todo o tempo em que viajavam um para ver o outro nunca duvidaram de que era possível aquele entregar-se.

Até o dia em que se entregaram mais do que de corpo e alma. Uniram-se em um único ponto, das coordenadas cartesianas que espelhavam a luz daquela vida em conjunto pro mundo. De compartilharem além de suas conquistas, uma vida, escolhas, planos, doçuras, desafios. E quando voltavam a se olhar - ah, aquele olhar. Sempre presente. Narizes que se beijam e bocas que flertam a vida inteira. De dois inteiramente presentes. E além.

domingo, 2 de setembro de 2018

Borboletas no estômago


Calo-me, pois já não tenho nada a dizer
Apenas calo
Todas as intenções, todas as palavras... 
Emudeço num mar de verborragias mentais {entre tantas pessoas querendo seu lugar ao sol}
Eu só sei me encontrar
E desse lugar que galguei com muito esforço
Apenas observo
Essas pessoas todas alvoroçadas por qualquer tipo de assunto
Fugindo de si mesmas.

Não sou perfeita, nem sou feita de aforismos
Sou carne, osso e borboletas no estômago
Ouso sonhar e dançar entre meus livros
Já não sei mais fingir que não me importo
Sussurro verdades ao vento para alguém ouvir
E uivo desejos vitais
Mas quem pode afirmar que o amanhã será melhor?
Serei ainda eu, novamente. Mais uma vez.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Esse tal lugar

Presume-se caos, encontra-se caos. Por todos os lados pessoas querendo ser elas mesmas num mar de espelhos distorcidos. Refletem sem filtro as mensagens adquiridas das mais diversas formas. Encontro-me aqui olhando perplexa para tudo isso e me questionando "onde me encaixo nisso tudo?". Porque eu nunca tive um fio condutor que me direcionasse para algo concreto. Aliás, nada aqui é concreto - é tudo muito fluido e dinâmico. E talvez seja essa falta de concretude que me dê alguma espécie de náusea existencial... como se eu estivesse sempre em um barco à deriva de algo que nem sei o que é. 

E volto a mim: eu quero chegar a algum lugar? Eu preciso chegar a esse lugar que nem sei onde é? Eu vou aceitar que me digam o que é esse lugar?  

Quem sabe aprender a navegar e tomar a vida como num barco que explora lugares, fatos, pessoas e situações sem me determinar a um porto "seguro" para ancorar e seguir a vida toda? Quem sabe abraçar a completa insensatez e flertar com a fragilidade? Quem sabe...

Desconstruções são necessárias, mas é preciso saber o limite - algumas podem nos desconstruir tanto que acabamos vazios de nós mesmos. Até onde podemos ir para testar nossos próprios limites e encontrar sentido? Quantos testes sucessivos somos capazes de suportar sem quebrar como um galho seco? Tenho testado a minha força e percebo que ela só aumenta com o tempo. Percebo força nas minhas decisões, nos testes que eu mesma inflijo à minha consciência e força de vontade. 

Para aqueles que pensam, parece tudo uma grande piada. Para aqueles que sentem, parece tudo um filme com um enredo compartilhado e dissonante. Para aqueles que ousam despertar, parece uma grande sinfonia de muitas vozes que só querem ser ouvidas e apreciadas. No fim, todos querem o mesmo buscando das formas mais diversas. Alguns andam, outros circulam, outros correm, outros tropeçam, outros tantos se deitam e lamentam enquanto ouvem os passos alheios. Alguns param e tentam erguê-los - nem todos querem. Deixa ser. Deixa o outro ser, ouve o chamado do teu coração. Quem quer ajuda pede e valoriza a mão que se estende. E se não agradecer, quê importa? Dê por ser amor e não para ser apreciado. 

É assim que eu amo. Sendo amor na trajetória alheia. Espalhando abraços, sorrisos e dança, algumas palavras e outros sorrisos mais. Dou meu melhor naquele momento e sigo na caminhada para esse infinito horizonte. Sempre tem lugar ao meu lado para aqueles que querem caminhar junto de mim. Mas respeito aqueles que querem ficar no seu próprio ritmo. E assim somos, todos, amor em movimento. 

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Personagens

De reflexão em reflexão, quebramos. Estilhaçamos antigas verdades e substituímos por outras. Na verdade, é um constante ciclo de autoaperfeiçoamento que nunca cessa. E ás vezes é difícil de encarar aquela velha crença de quem éramos e dizer 'adeus'.

Já fui muitas, na tentativa de ser eu mesma. Me vi de diversas maneiras e tentei levar estes vários eus juntos de mim na trajetória da vida. É cansativo, exaure, trava. Acaba sendo uma bola de ferro, como tantas outras que já estão sendo carregadas no bolso da consciência. Várias inúteis, sim, mas estamos tão acostumados com o peso que nem parecem tão incômodas assim... tudo o que pode ser desapegado, precisa ir pra fora das nossas vidas {amém}.

Então, aqui estou, desfazendo-me de personificações de mim mesma. Desnudando-me das facetas virtuais vestidas para me encontrar, para ser, para adquirir voz. Fui várias de mim, inclusive como Carol Moralles. Soava bonito, espanholesco, caliente e peguei pra mim. Sempre fui eu a escrever, a interagir, a rabiscar virtualidades. Entretanto, havia ainda uma parte de fora - uma bagagem, história, identidade - escondida em um canto. Queria sair e não se achava digna de ter ação no mundo. Não, Carol Moralles é melhor. Ela sabe dizer o que não digo.

No fim, nem uma nem outra. Ficamos nos silêncio, em reflexão. Uma pausa pra se encontrar no dia-a-dia da vida aqui fora. Afinal, quem sou eu? O que estou negando de mim mesma? Pseudônimos são normais, afinal, mas até que ponto eles tem mais voz do que a própria persona por detrás dele? Até que ponto eu estava disposta a me separar, a ser duas - e acabar não sendo ninguém?

Fiz amigos como Carol Moralles, que aprecio muito. Acabei me distanciando deles também ao escolher essa pausa, sendo a versão oficial de mim mesma. Até dos que conhecem essa 'versatilidade' do meu eu acabaram afastados de mim por consequência. 

Sim, sou duas, três, um milhão. Quantas cabeças terei afinal? Posso ser milhares dentro de minha imaginação, nos textos, desenhos, artes, manualidades - mas, agora, sou apenas uma em identidade: Carol Godoy.

Verdade seja dita, é um alívio finalmente ser 'uma' só!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Suposições

De suposições em suposições perdemos tempo. Gastamos energia juntando peças que sequer existem e assim, causamos um dano por vezes irreversível: pensamentos, palavras, ações que tomam corpo por uma ilusão da mente. Essa maquininha de arquitetar e equacionar, que busca nas mais ínfimas impressões cotidianas matéria-prima para analisar e construir teias de significado. Ah, calar a mente é a mais urgente e nobre tarefa - e talvez a mais difícil, principalmente quando tantas informações nos distraem ao mesmo tempo.

Enquanto as peças imaginárias são traçadas e montadas em nossas cabeças, uma infinidade de acontecimentos se põe em paralelo. Deixamos de caminhar, de escolher e de viver - por alguns minutos {ou muitos} em um devaneio quase insano de conjecturas. Puzzle de 5.000 peças pra quê? O cérebro é tão ardilosamente engenhoso, tão sagaz em suas profanações da consciência e tão exaustivo... consome ação sem mover um dedo nosso.

 E nessas subliminaridades, se desvencilhando de hábitos novos e ressurgindo nos velhos padrões equivocados, o nosso computador-sempre-a-bordo faz misérias com as listas mais belas de propostas ao novo ano. Planejar ações faz parte de uma esperança sempre renovada de um novo horizonte, mais belo e alegre, mais realizador e estimulante - mas o ponto primordial é aquietar a mente. 

É preciso romper tecidos empoeirados de crenças mofadas e sobrescrever a cartilha desestimulante do 'é difícil-complicado-impossível' que tanto escutamos desde pequenos com a sentença 'pode ser fácil-alegre-transformador'. A nossa mente quer nos proteger, esse é o papel dela, e cabe a nós deixar claro o nosso anseio pelo novo e também pelo desafio. O medo, ao invés de ser o general da mente que constrói barricadas, seguirá conosco - porém na retaguarda, como parte do processo. Vai dar o tom certo para evitar as impulsividades daqueles cheios de tempo gasto com as insalubridades passadas de geração em geração. 

Aproveitemos as boas lições deixadas, a bagagem cheia de história, os conselhos daqueles que seguiram seus próprios corações sem se arrependerem de serem completamente autênticos e - porque não? Serenos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Desenvolver-se e voltar a si


Quando crianças somos esponjas que absorvem tudo à nossa volta, desmedidamente. Tudo adquire importância, dado que não conseguimos escolher e nem dar as devidas dimensões a cada acontecimento, percepção, sentimento. Assim como as coisas vêm, elas ficam. E se quedam ali de qualquer jeito como se fossem brinquedos jogados dentro de um armário, acumulados e empilhados sem categoria ou classificação. Não há ordem, só há uns por cima dos outros. Tudo o que vivenciamos fica gravado de uma forma peculiar, a nossa forma de absorver as coisas – e cada um tem a sua.

Depois, adolescentes, temos a urgência de quem quer tudo pro agora (se for pra ontem melhor ainda) e apesar de haver um certo assentamento daquilo que acumulamos no passado ainda não conseguimos dar as medidas exatas por estarmos nesse momento do exagero de tudo. A fase é de seguir em frente, mesmo com esse incômodo causado pela bagunça chacoalhando dentro de nós, para juntar mais experiências. Fazemos reflexões com aquilo que temos disponível, à mão, mais em cima. Metemos a mão e puxamos algo para servir de argumento ou de armamento (contra o quê mesmo tínhamos de nos defender?).

Ao chegarmos à idade adulta achamos que estamos crescidos, inteiros – pessoas feitas. O grande engano é pensar que algo já está pronto, há muito a se fazer: na verdade nada foi feito. Há uma mistura de objetos a serem ordenados no nosso sótão e fingimos não saber. Queremos que os outros deem jeito em algo somente para os nossos olhos e nossas mãos. Precisamos entrar em contato com essa bagagem mista e confusa para transformá-la em parte de nós mesmos, mas para isso cada coisa precisa adquirir o seu exato valor. Possuímos cacarecos que consideramos ocupar um grande espaço e ao olhar de perto, e com calma, percebemos ter na verdade alguns míseros centímetros. Outros estão camuflados e escondidos debaixo de tapetes, se fingindo de desimportantes quando deveriam ser fruto de observação cuidadosa. Aí sim é hora de mergulhar e compreender, encarar os fantasmas e vê-los transformando-se em bichos de pelúcia empoeirados – quando crianças não tínhamos como percebê-los de alguma outra maneira.

Passo-a-passo reorganizamos, reclassificamos e jogamos fora tudo o que não serve para absolutamente nada, só entulha e atrapalha. Reassumimos o controle sobre o importante e o desnecessário e podemos abrir mão de culpas inúteis – tanto nossas quanto de outrem. Só assim, dispostos a fuçar nessa quinquilharia é possível se encontrar e ser feliz. Mas isso ninguém nos diz – que é fácil e é só querer, está disponível, é possível. Nos estimulam a seguir em frente mancos, estropiados, entulhados por dentro dizendo ser normal se sentir desconfortável. E essa náusea, esse cansaço, esse vazio, esse desconforto – é o quê? Não é nada: vai trabalhar, namorar, casar, ter filhos, comprar casa e carro, consumir coisas, comer, transar, beber, fumar, viajar, falar outro idioma, conhecer pessoas, fazer exercício que passa. Passa?

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A caminhada

     Enquanto trafegamos pelos caminhos da vida, encontramos diversas formas de percorrê-los. Tentamos mudar de veículo pois achamos que o problema de não chegarmos a lugar algum é a potência desse motor. Trocamos de carro e, a cada vez, percebemos que não temos muito sucesso com isso. Então mudamos as pessoas junto de nós, devem ser elas a causar estes tumultos limitando a nossa busca pelo amanhã da felicidade... engano. Uma pessoa depois da outra, várias opiniões, desejos, sentimentos, crenças e modos de agir completamente diversos. Mesmo assim estamos ainda fora da zona de alegrias desejadas, o nosso conjunto de sensações indescritíveis. 
         Toda vez nos frustramos, uma depois da outra, repetidamente - até que nos damos conta da busca equivocada, dos problemas causados por um erro de interpretação. Passamos correndo para o amanhã sempre distante e esquecemos de aproveitar esse exato momento, transbordante de possibilidades de ser feliz. Não são os olhos, mas o olhar. Não é o veículo, é a maneira de conduzi-lo. Não são as pessoas, e sim como interagimos com elas. Não é o local, mas se estamos inteiros nele. Não é o acúmulo de coisas, e sim a forma como nos utilizamos disso.
         Caminhamos para o fim sem aproveitar o meio e levando o antes como uma bola de chumbo, pesada e melancólica. Olhos cheios de esperança com as novas circunstâncias e perdidos do foco do agora: o mais importante. Quem seremos amanhã? Ainda um agrupamento de moléculas. Ainda um tumulto de sensações, sentimentos, ânsias. Ainda completamente falíveis. Ainda com arrependimentos, mágoas e medos.
        Vai fazer diferença acordar para este aqui que não é nenhum outro lugar, nenhum outro momento, nenhuma outra realidade. Estar presente dentro do próprio corpo faz valer a pena cada obstáculo {temporário} que se põe entre os nossos pés. Não importam as crenças, importa viver.
          Aqueles que deixam de viver a própria vida apenas se esqueceram de deitar no túmulo.